Mário de Andrade, a elegância, as igrejinhas e a salada paulista
- Luama Socio
- 23 de ago. de 2017
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Talvez pela multiplicação ou ampliação das facilidades de comunicação, os discursos que circulam sobre literatura, ou qualquer outro assunto propício a representação verbal, andam tremendamente brutos, partidários, belicosos, militantes ou terrivelmente autoritários, propagandistas. E Mário de Andrade, universal brasileiro em sua Língua, é taxado apenas de paulista. Assumir a identidade geográfica imposta pelas condições dos tempos não é nada mais do que simples consequência: aceita-se e exibe-se com orgulho a peculiaridade regional e, no caso de Mário, essa mesma identidade se faz viajante, espicaçada, maravilhosamente elegante em sua literatura e em qualquer coisa que ele faz ou escreve.
Um monstro pode ser definido, à luz de Foucault, como algo fora da lista das classificações taxonômicas, ou como o que está para entrar nela, o que pode fazer pensar sobre… como é que algo sem classe pode ser elegante, já que a elegância é muitas vezes definida como algo “de classe”, “classudo”? E esse é o tipo de elegância do Mário de Andrade: inclassificável, porém paulista, mas muito brasileiro, como não?
Leia o conto “O Ladrão”. Você pode pensar que aquilo poderia ser um filme, uma encenação teatral mas, isso é só a superfície mais imediata de impressões. Na verdade o texto não pode ser nada disso. É literatura mesmo. Um filme ou um teatro não seriam perfeitos para transmitir toda a miríade de ambiguidades emocionais das personagens envolvidas no quid pro quo do episódio da suspeita de haver um ladrão nas redondezas. E a elegância? Como seria expressa senão nessa possibilidade poética de concisão e precisa sonoridade das palavras durante a narrativa? A elegância de Mário faz da literatura uma universalidade, uma transcendência do cenário do cortiço em direção ao arco-íris de emoções supostamente deslocadas.
“Nos corpos entrecortados, ainda estremunhando na angústia indecisa, estalou nítida, sangrenta, a consciência do crime horroroso”. Que maneira tão completa e tão concisa de descrever o momento em que se é acordado de supetão, no meio da noite, por conta da balbúrdia dos vizinhos correndo atrás de um ladrão!
“Não perdeu tempo mais, disparou pela rua, porque lhe parecera ter divisado um vulto correndo na esquina de lá”. Mais uma vez: pura concisão elegante, pois não escreveu “esquina oposta” ou “não perdeu mais tempo”. O ritmo da escrita de Mário de Andrade é sua grande arte, como bem o demonstra sua principal obra, “Macunaíma”, inclusive em comprovados estudos e teses. E mesmo composto a partir da colagem de dois textos diferentes, o conto “O Ladrão” não descamba o ritmo: apenas perfaz uma gradação tonal.
E Mário, autor, transborda sua carne e seu osso pelo Brasil. O Turista Aprendiz, maravilhoso em sua viagem estética pelas costas do país, adentra para o interior do mapa por entre vielas etnográficas que, no mais das vezes, faz a denúncia do autoritarismo tacanha dos donos do Brasil, os quais atacam e dizimam as riquezas culturais existentes nessa terra. A todo lugar que vai, Mário adquire objetos bonitos que vai despachando para sua casa, por correio. Em algum ponto desses escritos, fala da deselegância das pessoas do sexo feminino nativas de São Paulo. Mas não fala sem carinho. Caetano Veloso depois pega essa ideia e coloca num verso de Sampa, e as meninas paulistanas, até hoje, discretamente, continuam usando seus vestidos finos sobre grossas meias. O Brasil calorento é muito mais elegante.
Em 1920, em São Paulo, o que hoje são panelas, eram então igrejinhas, ou seja, os partidarismos eram mais solenes e pré-antropofágicos então. Nessa São Paulo de “audácias e pasmaceiras… cada artista já se encastela em sua paróquia”, escreve Mário para a Civilização Brasileira. Ele, o inclassificável, portanto monstro elegantérrimo no seu ritmo de inevitável sarcasmo antropófago ainda diz: “nenhum sai da sua rua - a não ser que tenha o pouco apreciável desejo de ser devorado pelos iguais. Mas de longe todos se saúdam. Fazem-se cócegas mesmo, a perguntar numa gorda solicitude, em que ponto está o próximo quadro ou livro. Paira no meio um saboroso odor de hipocrisia. Que porém pessoa alguma o cheire com insistência e de mais perto: amarga com a vaidade alheia”.
É claro que a elegância monstruosa de Mário não escapa de reação ao belo atrevimento em meio ao fervilhar das panelinhas intelectuais vanguardistas que coerentemente ridicularizam seus ingredientes. Mário de Andrade, historicamente e obviamente foi alvo de achincalhamento. A RA (Revista de Antropofagia), chamava Mário de Miss São Paulo, o que, apesar de todas as intenções sarcásticas e maldosas, expressa a incrível e indisfarçada elegância do monstro.
Mário equilibra e transcende, através dos tempos, seus acertos e concertos extremamente ágeis (talvez como seus dedos ao piano) sobre justamente os traços identitários arraigados e cultivados nessa Cidade da Light, em que faz frio em plena primavera. Observe Mário parodiando Guilherme de Almeida (o Gui), com elegante ironia climática:
“Mas, no meio de tanta efervescência, Pauliceia tiritou de frio. Depois do verão florido em que se escancarou na última quinzena de outubro, novamente se regelava com a abertura do mês da República. Pleno inverno. Tudo se embuçava no arminho cor de cinza das neblinas, como diria o querido Gui. Uma brisa assustada navalhou a epiderme das ruas e estremeceram no espaço grossas gotas de orvalho, onde uma luz desfeita e multicor era como que uma saudade do Sol”.
Como não amar esse sabor de Mário de Andrade?! A salada paulista segue inalterada em sua receita, desde que foi publicada no Banquete: “Era uma salada norte-americana. Era uma salada fria, mas uma salada colossal, maior do mundo. (…) A salada não tinha cheiro nenhum, mas como era bonita e chamariz! Convencia pelo susto da vista, embora tivesse também muitas outras espécies de convicções. (…) Tinha mil cores, com mentira e tudo”.
É triste adaptarem sempre o Banquete de Platão e não o Banquete do Mário. No caso do teatro do Zé Celso com certeza isso ocorre porque ali são partidários do Oswald de Andrade. Aliás esse partidarismo tão peculiarmente paulista… em sua deselegância… só é excedido pelos mineiros, os quais, segundo Otto Lara Resende a partir de Nelson Rodrigues, “só são solidários no câncer”.
Apontando para fora dos limites paulistas e dos seus movimentos vanguardistas da primeira metade do Século XX, um folheto de apresentação sobre uma exposição dedicada à Mário de Andrade traz as seguintes palavras informativas sobre essa personalidade maravilhosa:
“Mais ativo idealizador do modernismo pátrio, da busca pelo nativismo, da procura pelas grandezas ocultas do país, Mário de Andrade destaca-se entre os intelectuais brasileiros pela amplitude de seus interesses e atuação. Sua dedicação ao reconhecimento e construção da identidade nacional fizeram-se por inúmeros meios: professor de música, poeta e prosador, crítico de arte, pesquisador, jornalista, fotógrafo, missivista e etnógrafo”.
Foto: Walter Antunes
ANDRADE, Mário de. De São Paulo: Cinco crônicas de Mário de Andrade, 1920-1921. Organização, Introdução e Notas de Telê Ancona Lopez. São Paulo: Sesc/Senac, 2003.
ANDRADE, Mário de. Melhores contos. Organização, Introdução e Notas de Telê Ancona Lopez. São Paulo: Global, 2003.
BOAVENTURA, Maria Eugênia. A Vanguarda Antropofágica. São Paulo: Ática, 1985.
Mário de Andrade: Etnógrafo, fotógrafo, poeta. Folheto explicativo de instalação na Caixa Cultural São Paulo. Março a Maio de 2013.