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A fotografia e a descoberta da sutil arte da contemplaĆ§Ć£o

  • Foto do escritor: Katawixi
    Katawixi
  • 6 de abr. de 2023
  • 9 min de leitura

Atualizado: 7 de abr. de 2023

Alex Montel revela o seu olhar e a sua fotografia na conversa com Walter Antunes: descobertas, transformaƧƵes, perspectivas, natureza, invisibilidades, geografias da exclusĆ£o, humanidades, expectativas, realidades, esperanƧas, presentes e futuros



Walter Antunes: Por que esse tema das aves?

Alex Montel: O tema aves nasceu da necessidade de um foco em algo especĆ­fico em que eu pudesse canalizar meus estudos com a fotografia. Eu possuo uma mĆ”quina semi-profissional desde 2018, mas nĆ£o estudava fotografia, nĆ£o conhecia a fundo o aparelho e a fotografia nĆ£o evoluĆ­a. Em 2020 eu comprei um livro que abordava a fotografia, fiz a inscriĆ§Ć£o em um curso e decidi que teria que evoluir e sair do modo automĆ”tico. Logo apĆ³s a chegada do livro veio o perĆ­odo de pandemia, eu tive que ficar em casa. Sobrou muito tempo ocioso e fui estudando, do quintal de casa eu comecei a observar os pĆ”ssaros nos quintais dos vizinhos.


As aves vinham pousar em mangueiras, aƧaizeiros, limoeiros, mamoeiros e comecei a focar nelas. No inĆ­cio as aves eram somente o que eu tinha para fotografar, mas Ć  medida que eu ia observando e as fotografando foi desenvolvendo em mim um gosto por conhecer as espĆ©cies, fotografava uma desconhecida por mim e enviava para um amigo biĆ³logo identificar para mim, este amigo, Hugo Buratti, contribuiu muito para este gosto meu, conhecer os nomes e as espĆ©cies fez-me aproximar mais dos pĆ”ssaros.


O tempo foi decorrendo em 2020 e quando me dei conta, havia fotografado quatorze espĆ©cies somente do quintal de casa e observando os pĆ”ssaros nas Ć”rvores dos quintais dos vizinhos. NĆ£o havia mais nenhuma espĆ©cie nova para fotografar de onde eu estava, entĆ£o resolvi ir para a estrada procurar novas espĆ©cies que pousavam nas Ć”rvores prĆ³ximas Ć s rodovias pois eu via muitas enquanto eu pedalava, ciclismo foi outra atividade que me atraiu em 2020 durante a pandemia.


Na primeira vez que eu fui fotografar na estrada, percebi que nĆ£o era mais somente a melhora das minhas fotos que eu procurava, era o gosto por encontrar novas aves para fotografar que me movia, foi nesta hora que deu aquele estalo e percebi o gosto pela fotografia de aves tinha verdadeiramente se instalado em mim.





Walter Antunes: Qual contraponto e reflexĆ£o vocĆŖ faz entre esse trabalho com os pĆ”ssaros e aves e a humanidade, sobretudo destacando o perĆ­odo das fotos feitas na pandemia?


Alex Montel: A primeira vez que eu resolvi postar fotos em uma rede social que nĆ£o fosse o whatsapp, foi no meu facebook. Neste dia eu nomeei meu post como ā€œSurtos na Quarentenaā€, ali para mim era um surto, uma fuga de tudo que ocorria naquele momento e entĆ£o eu refleti que eu era um ser preso, observando pĆ”ssaros livres. NĆ£o havia correntes ou gaiolas que me privassem de uma liberdade como alguns costumam fazer com pĆ”ssaros, mas havia uma doenƧa desconhecida que amedrontava a todos e eu nĆ£o saĆ­a de casa por isso.


EntĆ£o, lĆ” estava eu preso em uma casa, sentado em um gramado de um lote com medidas de doze por trinta metros, totalmente murado, preso no meu mundo em que julgava ser livre, no entanto livres eram os pĆ”ssaros que voavam todos os dias para vĆ”rios lugares desconhecidos por mim. Mas cabe destacar tambĆ©m que foi essa prisĆ£o durante a pandemia que permitiu que eu pudesse estudar a fotografia e enxergar os pĆ”ssaros que rodeavam minha casa, eles estavam sempre por lĆ”, eu que nunca via e este momento pandĆŖmico permitiu isso a mim.




Walter Antunes: Estas fotos sĆ£o feitas em quais lugares?

Alex Montel: Comecei pelo quintal de casa, depois fui para as rodovias prĆ³ximas a Araguatins, pois via muitos pĆ”ssaros enquanto pedalava pelas manhĆ£s. ApĆ³s despertar o gosto por fotografar aves eu sempre tenho andado com a mĆ”quina do lado e hoje sempre que posso faƧo fotos de aves. Tenho registros em Araguatins, ParĆ”, MaranhĆ£o, PiauĆ­ e BrasĆ­lia.



Walter Antunes: VocĆŖ verifica com as fotos uma resistĆŖncia ou um processo de afunilamento e falta de espaƧo para a natureza?

Alex Montel: Penso em resistĆŖncia das aves, o espaƧo sempre foi delas, a urbanizaĆ§Ć£o nĆ£o as impediu de viver, pelo menos nĆ£o as que fotografo em Araguatins, cidade que fica na transiĆ§Ć£o entre cerrado e floresta amazĆ“nica. Por aqui encontro aves com resistĆŖncia pois se adaptaram Ć s mudanƧas impostas pelo homem e alimentam-se pelos quintais.


AtĆ© mesmo pelas estradas encontramos aves que modificaram seus costumes alimentares para seguirem vivendo, como exemplo eu cito o GaviĆ£o CarcarĆ” (Caracara Plancus), facilmente encontrado pela regiĆ£o e alimentando-se de animais que morrem atropelados por carros, alguns vivem Ć  margem das rodovias como se aguardassem novas mortes.




Walter Antunes: As fotos se dĆ£o num processo longo para cada uma? Qual o tempo da espera e da procura?


Alex Montel: No inĆ­cio do processo, todos os dias eu me sentava no quintal pela manhĆ£ antes das sete horas e ficava observando as aves pousarem nas Ć”rvores dos quintais vizinhos, depois de um tempo isso foi reduzindo pois jĆ” nĆ£o encontrava mais novas espĆ©cies e foi a partir daĆ­ que resolvi ir para as estradas por onde eu pedalava.


Nas estradas eu costumo observar os costumes de movimentos das aves e quando encontro um padrĆ£o de horĆ”rio, costumo ir atrĆ”s para fotografar. Para o ano de 2022 eu fiz boas fotos em ConceiĆ§Ć£o do Araguaia, no mĆŖs de Janeiro eu registrei dezesseis novas espĆ©cies para minha coleĆ§Ć£o, as fotos foram feitas na margem do majestoso Rio Araguaia que banha a cidade. Depois eu tive problemas de ordem pessoal que me fizeram afastar da fotografia, terminei por direcionar todas as minhas energias para um outro campo da vida e esqueci por um perĆ­odo a fotografia, em Junho eu consegui boas fotos em uma viagem atĆ© CanaĆ£ dos CarajĆ”s e vim retornar novamente em meados do segundo semestre de 2022.


NĆ£o hĆ” um padrĆ£o para espera nem para o momento, tem acontecido quando posso, quando aparece tempo ou oportunidade. O fato Ć© que no momento, voltar a fotografar Ć© sinal de que a vida estĆ” retornando aos eixos.




Walter Antunes: Qual paralelo vocĆŖ faz entre as aves belas e raras com o ser humano desta regiĆ£o norte, raro e quase invisĆ­vel na visĆ£o imposta pela mĆ­dia das capitais do sudeste do paĆ­s?


Alex Montel: Esse ser humano Ć© mistura de todos os brasileiros. Por certo, hĆ” sim uma semelhanƧa entre as invisibilidades das aves e do homem nortista. As aves que voam pelas cidades ou pelas margens das rodovias, principais focos meus, sĆ£o invisĆ­veis aos moradores da cidade devido sua correria do dia-a-dia, nas estradas entĆ£o, mais ainda.


A vida na cidade mesmo que pequena, nos apequena enquanto ser humano capaz de observar a natureza. HĆ” quem plante jardins na cidade que produzam flores, mas que sĆ£o incapazes de observar que nestas flores aparecem beija-flores que ao alimentarem-se em seus quintais, fazem a polinizaĆ§Ć£o necessĆ”ria para que suas plantas produzam flores e frutos, caso sejam frutĆ­feras. Homens e mulheres na cidade ajudando passarinhos que retribuem e nĆ£o sĆ£o vistos. SanhaƧos de quase todas as cores comem mamƵes e sĆ£o espantados porque os furam, vistos como pragas, mas querem somente comer em um ambiente que nĆ£o Ć© mais tĆ£o seu. SabiĆ”s dissipam caroƧos de AƧaĆ­ que podem germinar em outros cantos e gerar novas Ć”rvores para alimentar mais pessoas e tambĆ©m aves. Mas nada disso Ć© observado e as aves sĆ£o deixadas de lado.


Eu vejo invisibilidade nisso tudo, aves invisĆ­veis ao povo, assim como o povo do norte Ć© invisĆ­vel para os grandes centros e para a mĆ­dia nacional. Mas hĆ” para mim um grande ponto a refletir. O ser humano da regiĆ£o norte, regiĆ£o na qual vivo e me incluo como vivente desta grande regiĆ£o que Ć© invisibilizado, Ć© o mesmo que nĆ£o enxerga os pĆ”ssaros, nossas aves, a natureza que fotografo.


NĆ£o Ć© a mĆ­dia das grandes capitais e centros que tornam nossas aves invisĆ­veis, Ć© exatamente o povo que aqui vive e cada vez que posto uma foto em minhas redes sociais Ć© exatamente para que sejam vistas, descobertas, nĆ£o Ć© por curtidas.




Walter Antunes: Como vocĆŖ enxerga a arte fotogrĆ”fica nesse momento com tanta gente com dispositivos para captaĆ§Ć£o entre cĆ¢meras e celulares?


Alex Montel: HĆ” fotos e Fotos, com F maiĆŗsculo mesmo. A captura de imagem estĆ” mais acessĆ­vel do que nunca, difĆ­cil encontrar quem nĆ£o carregue um celular na mĆ£o pronto a registrar tudo que possa acontecer a qualquer momento e de qualquer forma. A grande questĆ£o para mim Ć© o objetivo na captura destas imagens. Guardar o que? Guardar para quem?


NĆ£o vejo foco pessoal no foco da cĆ¢mera. Sem foco e objetivo, a captura Ć© banal. Ɖ comum ver pessoas, jovens em grande maioria, fazendo inĆŗmeras fotos que nunca serĆ£o postadas nas redes, reveladas, vistas por mais alguĆ©m, por simplesmente julgarem que a tal da ā€œposeā€ nĆ£o ficou legal e por isso nĆ£o merecem ser vistas. NĆ£o Ć© a foto pelo momento, Ć© a foto pelo ego pessoal. A grande facilidade, terminou por acabar com originalidade e a fotografia ficou banal.




Walter Antunes: As suas fotos expressam beleza, equilĆ­brio, revelaĆ§Ć£o de um universo cada vez mais desconhecido e distante para a auto-proclamada "humanidade civilizada". Como vĆŖ as mentes e o futuro dessa humanidade?

Alex Montel: DifĆ­cil falar em futuro dessa humanidade, o que posso falar Ć© de desejos. Tenho uma filha de cinco anos, desejo o melhor para ela e desejo que eu com meus trinta e sete anos possa acompanhar ela por muito tempo e a ensinar a viver neste caminho. Os passarinhos que fotografo, costumo mostrar para ela e gostaria muito que ela pudesse observar assim como eu um dia e se encantar com eles assim como eu me encanto.


Sei que a vida molda as pessoas cada um da sua forma, mas eu buscarei a ensinar, ensinarei tambĆ©m quem mais eu tiver oportunidades. HĆ” em mim um desejo enorme que o futuro seja muito bom para todos, que essa ā€œHumanidade Civilizadaā€ ou que se diz assim e ao mesmo tempo destrĆ³i a natureza, as aves, as matas em busca de modernizaĆ§Ć£o e urbanizaĆ§Ć£o, pare e reflita, que possa enxergar assim como eu enxerguei as aves, que o futuro nĆ£o Ć© esse, o futuro Ć© o da coexistĆŖncia, do uso adequado de tudo que a natureza nos proporciona.


Se o futuro for de uma nova adaptaĆ§Ć£o e nĆ£o de destruiĆ§Ć£o, a sociedade estarĆ” melhor servida, a vida serĆ” mais branda e menos sofrida, e se a sociedade nĆ£o sofre, a Alice, a minha Alice como costumo dizer, terĆ” um futuro melhor tambĆ©m e isso me traria paz.




Walter Antunes: VocĆŖ tem trabalhado outros temas de interesse alĆ©m deste com as aves e pĆ”ssaros?

Alex Montel: NĆ£o tenho trabalhado outros temas especificamente, quando tenho oportunidades eu fotografo o nascer ou o pĆ“r-do-sol, mas nada que seja constante. E tenho servido como fotĆ³grafo de eventos das escolas em que trabalho, mas sempre deixei claro que fotografar pessoas nunca me encanta como as aves e pĆ”ssaros.


Fotografar pĆ”ssaros e aves trouxe para mim uma sensaĆ§Ć£o de tranquilidade e um lazer que eu buscava hĆ” muito tempo. Sou professor desde 2008, queria algo que eu pudesse fazer como lazer, distraĆ§Ć£o e que me encantasse ao fazer, a fotografia de passarinhos me trouxe. Quando me proponho a fazer Ć© como se tudo parasse para aquele momento, o fotografar, a seleĆ§Ć£o das melhores fotos para ediĆ§Ć£o, a descoberta de uma nova espĆ©cie para a minha coleĆ§Ć£o, tudo me atrai e me distrai.




Eu sigo dizendo que nĆ£o busco likes, a troca de informaƧƵes com outras pessoas que tĆŖm o mesmo gosto que eu, me encanta mais, publico para que vejam, que todos vejam, nĆ£o pelos likes. Ouvir de algumas pessoas que tĆŖm conhecido os passarinhos pelo meu instagram me alegra, saber que alguĆ©m tem obtido conhecimento comigo atravĆ©s das postagens, vale mais do que likes. O desejo de aprender a fotografar melhor em 2020 levou-me a um caminho que eu nĆ£o esperava, mas que tenho valorizado demais caminhar por ele, pois tenho adquirido conhecimento e conhecido pessoas que enriquecem meu capital cultural como diz o amigo professor Leandro Ferreira.


No inĆ­cio da conversa eu citei o amigo Hugo Buratti, ele indicou a mim o sĆ”bio TĆŗlio Dornas, biĆ³logo especialista em aves. Com TĆŗlio aprendi demais, sigo aprendendo atĆ© hoje, essa troca de experiĆŖncias Ć© muito boa, enriqueceu-me demais. Ɖ pouco tempo com aves, apenas desde 2020, mas tenho aprendido muito. A atividade que comeƧou com outro foco, hoje conta com mais de cem espĆ©cies diferentes fotografadas por mim. A lista pode ser conferida em minha pĆ”gina no site da wikiaves.


Nestes trĆŖs anos de fotografia com pĆ”ssaros, gostaria de destacar dois momentos que enriqueceram-me profundamente e que tambĆ©m alegraram bastante.


O primeiro foi a volta em torno da Ilha de SĆ£o Vicente, territĆ³rio quilombola que fica em frente a cidade de Araguatins, junto com mais dois amigos, contornamos toda a ilha em 15 de Outubro de 2021, fizemos o percurso em motor "rabeta", viagem demorada, neste dia eu fotografei quinze espĆ©cies, naquele momento, nove inĆ©ditas atĆ© entĆ£o para mim e ainda observei mais nove espĆ©cies que nĆ£o consegui registro, um momento riquĆ­ssimo.


O segundo momento foi em dezembro de 2022 quando visitei uma regiĆ£o de mata fechada com o amigo CristĆ³vĆ£o Pereira, atĆ© entĆ£o eu nunca havia ido fotografar em matas, fizemos o registro de doze espĆ©cies, onze novas para mim. RegiĆ£o belĆ­ssima, pĆ”ssaros muito interessantes encontramos por lĆ”. Estes dois momentos foram marcantes para mim. Sigo em busca de mais momentos assim, sigo em busca de mais fotos. O desejo em 2023 Ć© registrar pelo menos cem novas espĆ©cies e que entre elas esteja o GaviĆ£o Real (Harpia Harpija), para como diz um amigo, zerar a vida.

Alex Montel por Alex Montel

Alex Montel, nasceu em 1986 em ConceiĆ§Ć£o do Araguaia, ParĆ”, filho de Seu Adiel, motorista aposentado e Dona RosĆ”lia, conhecida por Rosa, tambĆ©m aposentada e pai de Alice, ā€œminha Aliceā€. Cara fechada e rabugento como dizem alguns amigos, mas de um coraĆ§Ć£o enorme e sonhador. Um sonhador que ainda sonha como a crianƧa que nasceu em cidade pequena, que viveu por um tempo da infĆ¢ncia na zona rural, que morou por cidades pequenas e interioranas durante toda a infĆ¢ncia.

Formado em Letras pela Universidade Estadual do ParĆ” - UEPA em 2008 e mestre pela UNIFESSPA em 2019. Uma pessoa que gosta de ouvir e contar histĆ³rias, mais ouvir que contar, certamente e que vai aprendendo mais a cada vez que ouve. E claro, alguĆ©m que buscou nos pĆ”ssaros um foco para aprender a fotografar, mas que encontrou neles um novo foco para a vida e uma forma de apreciar, valorizar e expor atravĆ©s das redes sociais o quanto a natureza Ć© bela e encantadora a partir do momento que nos dispomos a observar ela.

Alex Montel no wikiaves

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